sábado, 22 de junho de 2013

Gregários

Caminha com teus pés pequenos
Apoiando-se sobre os calcanhares
Ah! besta de rebanho
A ocasião te deu o mote-
Os pés descalços onde o sapato aperta o calo...-
Procissão para um santo de pau oco.


Apoiando-se sobre os calcanhares
Disposto a qualquer ordem de
"-Meia volta, volver!"

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

E não digam que não tenho razão

Costuma-se diferenciar a espécie humana, que se autodenomina como o "homem que sabe", por uma faculdade que estaria ausente nos outros animais. A ela se dá o nome de razão. Mas o que é a razão? E como ela age?
Defini-la não é tarefa fácil, coisa que um editor de dicionários faria com uma simplicidade absurda; mas sua ação é facilmente compreensível. Afora todas as teorias freudianas, junguianas, piagetianas e blablablaanas, a razão incute na psique humana a consciência de si e do mundo que a cerca. Acometida dessa realidade, material em si, ela a questiona, não para compreendê-la somente, mas por temê-la. A razão procura se defender dos perigos da realidade, perigos que na verdade ela apenas especula, e como arma busca o conhecimento. Acontece que ela trabalha com categorias. Ou seja, a medida que vai desbravando o mundo ela vai encaixando os elementos desse mundo em grupos, categorizando-os assim como um biólogo separa os seres vivos em reinos, como um químico separa seus elementos em famílias e etc etc etc... A razão procura uma lógica, uma razão para a própria existência, dessa forma ela tem que criar o mundo à sua imagem e semelhança, assim ela se apraz e se reconforta ciente de que está em segurança, afinal o mundo possui uma lógica e existe para uma finalidade, seja ela qual for.
Mas, porém, no entanto, não obstante, entretanto, todavia, , tudo não passa de especulações. Durante muito tempo os homens acreditaram que a órbita dos astros no universo eram circulares, pois viam no círculo a forma perfeita. Com o tempo o universo se mostrou um espaço caótico onde as poucas leis descobertas pelo homem só funcionam em situações excepcionalíssimas. (imagine um físico que passa horas calculando o comportamento de um corpo ao se locomover numa superfície totalmente livre de atrito). O espaço, dito sideral, é uma profusão de corpos que se movem aleatoriamente sem próposito nenhum, se chocam, explodem, criam buracos negros, engolem uns aos outros... E, pasmem! mesmo assim, a razão humana ainda procura um sentido nessa bagunça, pois pra ela é melhor acreditar que existe uma ordem do que admitir que está a esmo num planeta que vaga por aí sem destino. Ainda que pra isso seja preciso criar um deus, ou deuses, que ofereçam a resposta.
Ciência e religião trabalham portanto para a mesma finalidade, ainda que alguns digam que a segunda seja totalmente destituída de razão... Mas pensemos bem: Deus organiza o caos, cria o paraíso e poe o homem lá. Tudo isso usando da palavra que mais tarde, no evangelho de João, será chamada de Logos e identificada com o próprio Cristo, redentor da humanidade que irá conduzi-la de volta ao paraíso. Ora, Logos é também um termo que, usualmente, é traduzido como "estudo" (Biologia = estudo da vida; Geografia = estudo da Terra... Blá blá blá.... - enfim). Acontece que para os gregos, povo que criou o termo, estudar algo não era apenas conhecê-lo, e não se estudava apenas algo: o importante era saber sobre tudo "Logos" era, portanto, conhecer, registrar, catalogar, dividir e categorizar tudo como se faz com livros numa biblioteca ou com documentos num arquivo. Ou seja, organizar, atribuir uma ordem em tudo o que era perceptível assim como Deus organizou a criação. Usando da mesma ferramenta, a razão humana criou ciência e religião para se sentir segura, para preencher a si própria.
Há de haver uma ordem, uma lei que transforme o mundo num todo harmônico que garanta a sobrevivência do homem. Mas, eis o caso: o mundo não foi feito para comportar a espécie humana, nem espécie alguma, nem mesmo a vida, esse fenômeno rarissímo no universo. Não existe harmonia na natureza. Aquilo a que se dá o nome de equílibrio ecológico nada mais é do que um conjunto de fatores que, atualmente, torna possível a vida humana. Mas a natureza não é estática. Nunca foi. Antes de a razão querer compreendê-la, a natureza tornou possível o surgimento e a destruição de várias espécies, criou e destruiu climas e, em sua grande "história", o caos, a morte, o ilógico é o que predomina...

Dizem que mentir pra si mesmo é a pior mentira. Mas imaginem quão terrível seria para a razão humana conviver com a realidade de que sua existência não tem propósito, que vive em um mundo que pode a qualquer momento engoli-la? Dar um sentido para a vida, procurar uma lógica e uma harmonia na natureza acaba por se tornar uma mentira necessária para que o homem suporte a vida sem cair no desespero...

sábado, 26 de janeiro de 2013

Se nem tudo é ilusão
O resto é mentira e engano
E eu esperando o café chegar...
E mesmo que de tão quente me queime as pontas dos dedos
Nunca temo tocar a xícara.
Nem tudo é ilusão
Mas o que sobra é tão falso quanto o doce do adoçante...


Queima o cigarro com cheiro de fumaça
A fumaça é pura ilusão
Não tem forma e não pode ser tocada
E leva embora os meus pensamentos
E nela o tempo se esvai
O resto é só mentira
História mal contada por quem não estava lá...


Trago os dedos queimados
Trago o cheiro da fumaça
Penso em ir embora com meus pensamentos e o gosto amargo do café...
Nem tudo é ilusão
E o garçom sorri enquanto conta o meu troco...

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Poemas historiográficos

1.
Vê, Clio, são aqueles que dizem te servir
Vê quanto pudor trazem no bico da pena?
Vê quanta cupidez imprimem em suas páginas?
E pensam que assim, castrando-se, Te louvam...
Ah, Clio, mostra-os que também és Pandemos
Que de Ti é a libertinage
Que as Tuas noites são de orgia
Ensina-os que não há nem um nem outro
Que a nudez é a melhor das vestimentas
Encara-os, Clio, e mostra-os a sua inocência...

2.A História não morreu
Não como quem morre...
Não chegamos ainda ao fim
Ainda que seja este o nosso fim...
Mas, esperem! Não é Ela quem vem?
Bêbada, trôpega, cambaleante.
Ah! Que fizeram eles de Ti?
Morres como quem vive morre:
Aos poucos, aos poucos...

3.
Quem são esses homens curvados
e que tanto olham para trás?
São historiadores e carregam nas costas
o imenso fardo do passado.

4.
Olha tuas cãs, historiador
E vê que elas já te denunciam:
És velho e moribundo
Velho ranzinza e ressentido com a juventude
Que de ti foi embora tão cedo...

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Educação em casa e na escola - Construção ou destruição?


“Morreu o pai dele, e foi como se não tivesse morrido; porque deixou depois de si um seu semelhante”
Eclesiástico 30, 4

“Filho de peixe, peixinho é.” Esse adágio popular, tão bem conhecido, antes de expressar uma verdade, expressa um desejo. O desejo que cada um tem de gerar filhos que sejam a sua imagem e semelhança. – Nem mesmo Deus resistiu a essa tentação.
Mas tal desejo carrega consigo um grave erro: Projeta-se nos filhos não aquilo que se é, mas aquilo que se aspira ser ou, pior, aquilo que se acha que é. Os preconceitos e más percepções da realidade são jogados nos filhos, junto com a cobrança de que eles os absorvam por inteiro e os reproduzam. Conselhos, admoestações e castigos são os meios primários de que os pais se valem para realizar tão missão. De forma secundária e complementar, existe a escola.
No entanto, a escola encara esse projeto com uma abrangência maior. Nela, os filhos dos pais são educados de forma que constituam seres onde se quer ver refletidos os valores e medidas da sociedade em geral. Assim, na bélica Esparta, educavam-se guerreiros; na democrática Atenas, cidadãos. Mas os tempos são outros. Os pais de antigamente jazem mortos e parece que o seu desejo de deixar, depois de si, um seu semelhante não foi bem sucedido. Novos valores e medidas regem a atual sociedade, mas ainda se insiste em perpetuá-los através dos filhos. A escola, portanto, não perdeu o seu papel.
 Situemo-nos, pois, no presente. Um mundo onde as bases da educação assentam-se em objetivos como esse:

 Desenvolver uma atitude de solidariedade e compromisso social, valorizando a justiça e os direitos fundamentais do ser humano.

Como logo se verifica, as palavras-chave desse texto são: solidariedade, compromisso social, justiça e direitos humanos. Além dessas, podemos captar outras como: tolerância e respeito. Palavras que, para nossos coevos, possuem uma dimensão semântica bem conhecida. E que, no entanto, não passam de palavras que, como quaisquer outras, nada dizem se não forem inseridas em um contexto. Mas eis que, à medida que esse contexto se amplia, as palavras diminuem e, espanto! – passam a não significar nada.
Alguns até admitem que a vida seja um teatro. Mas poucos são os que percebem que até as palavras que usamos são partes desse cenário onde atuamos. O que é “bem”; o que é “mal”; o que é “certo”; o que é “errado” senão meras construções forjadas para compor o palco onde vivemos?


Desde pequenos formulamos os nossos "por quês?". Mas não nos enganemos. Desde pequenos também somos reprimidos e incitados a não ir muito longe. Afinal, qual pai ou mãe, depois do terceiro ou quarto "por que?" do filho não disse: “Porque sim. Agora vá brincar que é o melhor que você faz.”?
“Não comerás da árvore do conhecimento do bem e do mal.” Disse Deus ao homem. Como esse O desobedeceu, expulsou-o do paraíso. Depois, não satisfeito, confundiu a sua língua. Mais a frente, vendo que o homem continuava em sua desobediência, Deus o afogou. Não é exatamente isso o que o pai faz com o filho quando lhe responde com coisas como: “Porque eu quero. Eu sou o pai e dono da casa. Quem manda sou eu.”? Não é o mesmo quando, na escola, o professor já tem respostas prontas e dá-las sem se importar se os alunos compreenderam ou não?
Em entrevista a revista IstoÉ do dia 9 de setembro de 2009, Richard Nisbett, pesquisador americano, autor do livro Intelligence and how to get it, defende que os pais devem parar de criar os filhos para obedecer:

“[a obediência] não encoraja as crianças a atividades que possam deixá-las mais espertas.”

Quando se acorda cedo, vai para a escola levando os livros que serão usados naquele dia específico, senta na cadeira e toma seu lugar no ritual que é a aula, não está o aluno apenas obedecendo?
Um “Por que, professor?” é tão instintivo como os nossos primeiros da infância. Se o professor reduz a sua dimensão dando a resposta pronta que soa como um “Porque sim e agora se cale” o aluno resigna-se e sua curiosidade morre. Infelizmente é isso o que ocorre na grande maioria de nossas escolas.
 Não estou pregando a anarquia. Mas deixar a criança descobrir por si só os valores os quais ela deve absorver é mais saudável que impô-los. Em um estágio na faculdade presenciei a seguinte cena: A professora perguntou aos alunos: “Vocês acham certo discriminar alguém só por causa de sua cor?” Aos que os alunos responderam em uníssono “Não!”. Além dessa quero citar uma outra experiência que tive com meu sobrinho. Ele chegou em casa, vindo de escola, e mal tirou os tênis, saiu procurando os chinelos. “Preciso dos meus chinelos. Não posso ficar com os pés no chão.  “ Disse. Eu, que nunca o vira tão preocupado em ficar calçado, interroguei-lhe. “As crianças devem ficar calçadas.” Disse ele. “Por quê?” Eu quis ouvir a explicação dele esperando ouvir algo sobre micróbios e doenças. Mas ele simplesmente disse: “Por que a professora disse que é para ficar calçado.” Imagine, então o que responderia uma daquelas crianças da primeira cena se interrogada por que é errado discriminar as pessoas por sua cor...
Não dar respostas, mas fornecer elementos para que o aluno – ou o filho – chegue a uma resposta. Eis o que defendo. O aluno chega a uma resposta. A partir daí, cabe ao professor levá-lo a compreender se aquela resposta é suficiente ou se comporta mais coisas. É o processo inverso do pai repressor. Ao invés de mandar a criança ir brincar, estimulá-la a questionar ainda mais, ampliando o contexto. A pergunta que antes era “Por que é errado discriminar as pessoas por sua cor?” amplia-se e multiplica-se: “Por que julgamos errado discriminar as pessoas por sua cor?” “Será que sempre foi errado discriminar as pessoas por sua cor?” Enfim...
Se quisermos quebrar os preconceitos, então é preciso quebrar todos, inclusive aqueles que dizem que determinada coisa é certa ou errada. O que quero dizer é que, por mais estranho que possa parecer, quando calçou os chinelos simplesmente porque a professora disse que o certo é ficar calçado, meu sobrinho adquiriu um preconceito. O mesmo acontece com o aluno que não vai mais discriminar uma pessoa por sua cor só porque a professora disse que era errado.
 Mas, então, chegamos ao nada? Se ampliarmos o contexto, se mergulhamos mais e mais, formulando por quês as palavras vão perdendo o seu sentido, pois caímos num relativismo. O que é errado hoje, há algum tempo atrás não era considerado errado, então não é errado em si. Niilismo? Negação dos valores? Destruição de tudo que sustenta a sociedade?
Não! Um filho inteligente, mesmo não concordando com o pai, vai perceber que, em algumas situações, obedecê-lo é questão de bem estar, de convivência e até, de vida ou morte...
 O que muda é que, livre dos preconceitos, é muito mais fácil descobrir novas coisas. O que pode fazer com que uma geração seja sempre um pouco mais que a outra... Eis aí o perigo que se corre: O filho foi feito para ser a imagem e semelhança do pai, e não maior que ele; e nada é tão temeroso que a inveja de um pai.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O presente poema mescla elementos das mitologias japonesa e mesopotâmica.
 No xintô, Izanagi e Izanami são o casal primordial de onde provém o genêro humano; no entanto, ao dar à Luz ao Deus do fogo, Izanami morre. Inconformado, Izanagi vai atrás de sua amada no mundo dos mortos, mas ao vê-la desfigurada pela Morte não suporta a visão e foge. De volta, lava-se para se purificar, e da água com que se lava, nascem três deuses: Tsukuyomi, deus da Lua; Amaterasu, deusa do Sol e Suzanoo, deus do vento. Suzanoo apaixona-se por sua irmã, e ela fugindo de seu assédio se esconde em uma gruta, deixando o mundo na escuridão. Após a insistência dos outros deuses retorna e Suzanoo acaba por ser condenado a abandonar os céus.
 Na mitologia mesopotâmica quem desce ao mundo dos mortos é Inanna, também conhecida por Ishtar ou Astarte, deusa dos céus. Em algumas versões mais antigas, ela vai buscar de volta o filho e esposo Tammuz, morto por um demônio. Em versões mais "recentes", vai por pura diversão. Condenada por violar as Leis, morre e fica presa no submundo até que um servo seu a procura e lhe revive com a água e o alimento da vida, dados por Enlil, deus principal.
 Em comum a relação morte/vida mediada pelo amor.
Sessenta vezes o alimento da vida
Sessenta vezes a água da vida.
Ah! Izanagi, por que foges tão desesperadamente?
A face da morte levou teu amor?
E tu, Izanami, por que o persegues?
De tua morte concebeste um filho
Do nojo de Izanagi gerarás mais três...
Sessenta vezes o alimento da vida
Sessenta vezes a água da vida.

As leis do mundo mais baixo foram cumpridas
Não questione as leis do mundo mais baixo.
Ah! Suzano, por que pertubas tua irmã?
O orgulho levou teu amor?
E tu, Amaterasu, por que o desprezas?
De tua semente provém o rei da terra
Da coragem de Suzano nasceu o senhor dos mistérios...
As leis do mundo mais baixo foram cumpridas
Não questione as leis do mundo mais baixo.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Café quente, cigarro queimando devagar
Uma leve vontade acompanha a fumaça
Subindo e dançando e sumindo.
Há lá fora mais vida do que aqui dentro
Há aqui dentro lembranças de lá fora
Mas eu não saio e não danço
Eu apenas desapareço como fumaça
E sorrio triste como quem lembra do passado...

Não me dou bem com o frio
Não me acostumo ao calor.
Sobe a fumaça do cigarro e dança
E eu sorrio como quem esquece o passo
E, fora do ritmo, disfarsa o mau passo...
São tortos os meus caminhos
São caminhos de aqui dentro
E quantas vezes me perdi por eles...

Pego um cobertor que me cubra
E ele não me cobre por inteiro
Acendo mais um cigarro e largo a xícara vazia
Um vazio de aqui dentro escapa para lá fora
E eu sorrio como quem disfarsa que não viu
E deixo leve e à vontade o que é só vontade.